
O preço do arroz no Brasil atingiu seu menor patamar desde 2022, segundo dados do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea). A saca de 50 kg, que chegou a ser comercializada acima de R$ 130 no primeiro semestre do ano passado, agora oscila entre R$ 70 e R$ 85 em algumas regiões produtoras, como Rio Grande do Sul e Santa Catarina. A queda, embora benéfica para o consumidor, tem preocupado agricultores e vendedores, que enfrentam margens de lucro cada vez mais apertadas.
A desvalorização do cereal é atribuída a uma combinação de fatores:
Safra recorde: A colheita 2023/2024 superou expectativas, com aumento de aproximadamente 5% na produção nacional, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). O clima favorável e o investimento em tecnologia agrícola impulsionaram o volume.
Demanda enfraquecida: Com a retração do consumo das famílias devido à alta de outros alimentos e o desemprego, muitos brasileiros reduziram o volume de compras ou migraram para opções mais baratas, como massas e farináceos.
Cenário internacional: A retomada das exportações de arroz da Índia – maior produtor global – e a valorização do dólar abaixo do esperado reduziram a competitividade do produto brasileiro no exterior, aumentando a oferta interna.
Para os agricultores, a queda nos preços pode inviabilizar a próxima safra. "Os custos de produção subiram muito com os fertilizantes e defensivos agrícolas. Se o arroz não cobrir essas despesas, muitos vão abandonar o plantio", alerta José Carlos Hausknecht, presidente da Federação das Associações de Arrozeiros do Rio Grande do Sul (Federarroz).
Além disso, estoques elevados pressionam o mercado. Armazéns e cooperativas estão com alta capacidade de armazenagem ocupada, o que pode forçar liquidações a preços ainda menores nos próximos meses.
Apesar da queda no atacado, a redução nos supermercados tem sido mais lenta. Enquanto o preço no produtor caiu cerca de 30% em um ano, as prateleiras registraram diminuição média de 10%, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Especialistas atribuem a diferença a custos logísticos e margens de comercialização.
Para economistas, a tendência é que os valores se mantenham baixos no curto prazo, mas a incerteza sobre a safra 2024/2025 e possíveis quebras em outros países podem reverter o cenário. "Se houver redução na produção global, os preços podem reagir já no fim do ano", avalia Alan Malinski, analista de commodities.
Enquanto isso, o Ministério da Agricultura monitora o setor, mas descarte medidas emergenciais por enquanto. Para os produtores, a esperança é que a demanda se recupere ou que novos acordos de exportação aliviem a pressão sobre os preços.
Fonte: Dados consolidados do Cepea, Conab e IBGE, com entrevistas de representantes do setor (agosto/2024).