
Frigoríficos brasileiros que exportam carne bovina para os Estados Unidos já readequaram suas produções para atender a outros mercados, como China, Chile, Oriente Médio e Filipinas. A medida é uma resposta imediata à decisão do presidente norte-americano, Donald Trump, de aplicar uma taxa de 50% sobre as exportações brasileiras a partir de 1º de agosto.
O Correio do Estado apurou que a JBS, maior exportadora do estado, foi uma das primeiras a redirecionar seus lotes. Além dela, empresas como Minerva e Naturafrig também ajustaram suas operações. Alberto Sérgio Capuci, vice-presidente do Sindicato das Indústrias de Frios, Carnes e Derivados de MS (Sicadems), confirmou que todos os frigoríficos afetados normalizaram os abates e encontraram novos destinos para a produção.
O secretário estadual de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação (Semadesc), Jaime Verruck, destacou que o status de Mato Grosso do Sul como área livre de febre aftosa sem vacinação abre portas para mercados antes inacessíveis. “Isso é um fator extremamente positivo. A restrição americana pode, paradoxalmente, impulsionar a diversificação das exportações”, afirmou.
Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic) mostram que as vendas do estado aos EUA somaram US$ 315 milhões no primeiro semestre de 2024, alta de 11,4% em relação a 2023. A carne bovina, especificamente, teve um salto de 78%, passando de US$ 81,4 milhões para US$ 145,2 milhões no mesmo período.
Enquanto as indústrias se adaptam, o preço da arroba do boi gordo segue em queda no mercado físico. Segundo a Granos Corretora, o valor recuou 6% em uma semana, caindo de R$ 303,30 (antes do anúncio de Trump) para R$ 285,65. Comparado a junho, a queda acumulada chega a 7%.
A União Nacional da Pecuária (UNP) emitiu nota expressando preocupação com possíveis pressões das indústrias para reduzir ainda mais os preços pagos aos produtores. “Algumas empresas usam o cenário como justificativa para derrubar a arroba, o que é inaceitável”, criticou a entidade, da qual a Associação dos Criadores de MS (Acrissul) faz parte.
Paulo Matos, presidente da Associação Sul-Mato-Grossense dos Criadores de Nelore, foi mais enfático: “Os EUA compram apenas 8% da carne que exportamos, equivalente a 2,3% da produção nacional. Falar em colapso é má-fé. Querem transferir os custos da disputa comercial para o produtor”.
Segundo cálculos do setor, mesmo uma queda de 70% nas exportações para os EUA geraria um excedente de apenas 160 mil toneladas anuais – volume que pode ser absorvido por outros mercados.
O economista Eduardo Matos avalia que, apesar dos efeitos negativos no curto prazo, a tendência é de normalização. “Essa medida não beneficia nem os EUA nem o Brasil. No médio prazo, o comércio deve se reequilibrar”, projetou.
Enquanto isso, o estado aguarda os desdobramentos das negociações bilaterais e a consolidação de novos acordos internacionais. Para os produtores, a prioridade é evitar que a turbulência internacional se traduza em perdas irreparáveis no campo.
Fonte: Dados do Mdic, Granos Corretora, Sicadems, UNP e Acrissul.