Internacional Geopolítica
Venezuela impõe tarifas de até 77% sobre produtos brasileiros e gera tensão comercial sem aviso prévio
Medida surpreendente atinge exportações com certificado de origem, violando acordo bilateral; empresários e governo brasileiro buscam esclarecimentos.
26/07/2025 02h23
Por: Kaio Silvano

A Venezuela passou a cobrar tarifas de importação sobre produtos brasileiros que variam de 15% a 77%, mesmo em casos em que deveriam estar isentos, conforme o Acordo de Complementação Econômica (ACE 69) firmado entre os dois países em 2014. A decisão, tomada sem aviso prévio, pegou exportadores e autoridades de surpresa e levantou dúvidas sobre suas reais motivações.  

A informação foi inicialmente divulgada pela *Folha de Boa Vista* e confirmada pela Federação das Indústrias do Estado de Roraima (Fier). Empresários relataram que as autoridades venezuelanas estão recusando certificados de origem brasileiros, obrigando os exportadores a pagarem as altas alíquotas. O Brasil exportou US$ 1,2 bilhão para a Venezuela em 2024, com destaque para açúcar, arroz e milho, enquanto importou US$ 422 milhões, principalmente alumínio, fertilizantes e derivados de petróleo.  

O presidente da Câmara Venezuelana Brasileira de Comércio de Roraima, Eduardo Oestreicher, afirmou que a cobrança foi retomada abruptamente no dia 18 de junho, sem justificativa oficial. "Não sabemos se foi por razão política, técnica ou um erro", disse. A Embaixada do Brasil em Caracas foi acionada para apurar o caso.  

As relações entre os dois países estão tensas desde julho de 2023, quando o governo brasileiro se recusou a reconhecer a reeleição de Nicolás Maduro, contestada por falta de transparência. A Venezuela também rompeu laços com a Argentina pelo mesmo motivo. Além disso, Maduro demonstrou insatisfação após o Brasil barrar a entrada da Venezuela no bloco dos BRICS no ano passado.  

A medida venezuelana também afeta outros membros do Mercosul (Argentina, Paraguai e Uruguai), que possuem acordos similares de isenção tarifária. A Venezuela está suspensa do bloco desde 2016 por acusações de ruptura democrática.  

O Ministério das Relações Exteriores do Brasil afirmou, em nota, que está trabalhando com o MDIC para resolver o impasse: *"A Embaixada em Caracas busca esclarecer a situação com as autoridades locais, visando a normalização do comércio bilateral, conforme o ACE 69, que proíbe tarifas de importação entre os países."*  

 A decisão da Venezuela ocorre dias antes de os Estados Unidos implementarem uma sobretaxa de 50% sobre produtos brasileiros, anunciada por Donald Trump. Enquanto os EUA justificam a medida como retaliação comercial, o silêncio de Caracas alimenta especulações sobre motivações políticas.  

Enquanto isso, empresários de Roraima, estado mais afetado pela medida, temem prejuízos. Com a Venezuela sendo um dos principais destinos das exportações da região, a taxação pode inviabilizar negócios e pressionar os preços de alimentos essenciais no mercado venezuelano, já combalido pela crise econômica.  

O governo brasileiro aguarda respostas formais, mas a situação reforça o distanciamento entre os dois países, em um momento em que a diplomacia regional enfrenta novos desafios.