BRASÍLIA – A relação entre Brasil e Estados Unidos, marcada por décadas de alianças estratégicas e crises pontuais, enfrenta seu momento mais tenso em anos. A decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) de avançar em investigações contra o ex-presidente Jair Bolsonaro desencadeou uma reação dura de Washington, elevando o tom entre os dois países a um nível que especialistas comparam a momentos críticos do passado – mas com um agravante: a quase ausência de canais de diálogo.
A relação bilateral já passou por turbulências antes, mas sempre com espaço para negociação:
1964: Os EUA apoiaram o golpe que derrubou João Goulart, em plena Guerra Fria.
Anos 1970: O governo Carter cortou cooperação militar com o Brasil devido a violações de direitos humanos na ditadura.
1985: O governo Reagan impôs sanções por causa da Lei da Informática, vista como protecionista.
2013: A revelação de que a NSA espionou Dilma Rousseff causou um rompimento temporário na confiança.
Desta vez, porém, o cenário é diferente. Fontes diplomáticas relatam que a resposta americana à atuação do STF foi imediata e dura, com ameaças veladas de retaliação – algo que, se confirmado, poderia levar a um confronto sem precedentes na era democrática.
O STF, ao aprofundar as investigações sobre Bolsonaro e aliados, deflagrou um terremoto político que ultrapassou fronteiras. Setores do governo americano, ainda influenciados por simpatizantes do ex-presidente no Congresso dos EUA, teriam visto a decisão como uma "perseguição política".
Embora a Casa Branca não tenha se manifestado oficialmente, assessores próximos ao Departamento de Estado admitiram off the record que "medidas de resposta" estão sendo avaliadas. Especula-se sobre possíveis restrições comerciais ou até mesmo revisão de acordos tecnológicos – incluindo, em um cenário extremo, a ameaça de restrições ao acesso ao GPS, sistema controlado pelos EUA e vital para setores como agronegócio, aviação e segurança nacional.
A possibilidade de os EUA limitarem serviços como GPS ou até mesmo pressionarem empresas de tecnologia a restringir acesso a plataformas no Brasil é considerada remota por especialistas, mas não impossível em um cenário de escalada.
GPS: O Brasil não tem um sistema próprio de navegação por satélite e depende totalmente da rede americana.
Internet: A infraestrutura global é interligada, mas os EUA poderiam dificultar o acesso a serviços críticos em caso de ruptura.
"Não estamos falando de um blecaute total, mas de pressões indiretas que poderiam afetar economia e segurança", explica um ex-diplomata brasileiro que preferiu não se identificar.
O maior risco, segundo analistas, não é um rompimento formal, mas um congelamento das relações, com impactos em comércio, tecnologia e cooperação militar. Enquanto o governo Lula tenta equilibrar uma política externa não alinhada automaticamente aos EUA, Washington parece cada vez menos disposto a tolerar atritos com um aliado histórico.
"O Brasil já enfrentou crises com os americanos antes, mas sempre houve margem para negociação. Agora, o problema é que os dois lados parecem falar línguas diferentes", avalia uma fonte do Itamaraty.
A situação é grave, mas ainda reversível. O Brasil tem alternativas, como acelerar parcerias com China, Rússia e União Europeia para reduzir dependências estratégicas. No entanto, um rompimento completo com os EUA traria custos imediatos – e, em um ano de eleições americanas e polarização global, nenhum dos lados tem interesse em uma guerra aberta.
O que está em jogo, no fim das contas, não é apenas uma disputa judicial ou política, mas o futuro de uma relação que ajudou a moldar o Brasil moderno. E, desta vez, o preço de um erro pode ser incalculável.