A recente escalada da guerra comercial entre China e Estados Unidos abre uma janela de oportunidades para o agronegócio brasileiro. Com Pequim impondo novas tarifas sobre produtos agropecuários americanos, o Brasil se consolida como um fornecedor estratégico e pode ampliar significativamente suas exportações.
A história se repete. Durante o primeiro mandato de Donald Trump (2017-2020), retaliações chinesas aos produtos agropecuários dos EUA impulsionaram as exportações brasileiras. Agora, o governo Lula busca aproveitar o novo movimento de Pequim, que decidiu impor tarifas adicionais de até 15% sobre frango, trigo, milho e algodão, e de 10% sobre soja, carne suína, bovina, laticínios e outros produtos.
Dados do Departamento de Agricultura dos EUA já apontavam essa tendência. Em 2018, a China reduziu suas compras de produtos agropecuários americanos em US$ 8 bilhões, enquanto as exportações brasileiras aumentaram em US$ 4 bilhões. A expectativa é que essa nova rodada de tarifas reforce ainda mais essa dinâmica.
Entre os produtos que mais podem se beneficiar da nova conjuntura está a soja. Em 2024, o Brasil exportou 74,6 milhões de toneladas do grão para a China, faturando US$ 36 bilhões. Os Estados Unidos, por sua vez, venderam 22,13 milhões de toneladas, totalizando US$ 12 bilhões. Com a imposição de tarifas aos americanos, o Brasil pode ampliar ainda mais sua fatia nesse mercado.
O milho também entra na equação. Com previsão de safra recorde, o excedente brasileiro pode ser absorvido pela China, que busca alternativas aos produtos taxados dos EUA. Esse movimento abre espaço para maior diversificação e consolidação do Brasil como um grande player no fornecimento global de grãos.
O setor de carnes também sai fortalecido. Os Estados Unidos são o segundo maior fornecedor de aves para a China, atrás do Brasil, e possuem uma fatia relevante no mercado de carne suína. Com a nova rodada de tarifas, os produtores brasileiros podem expandir ainda mais sua presença nesses segmentos.
Até mesmo o sorgo, cultura pouco explorada no Brasil, ganha destaque. Os EUA são os principais exportadores do grão para a China, que importou US$ 1,83 bilhão em 2023. Recentemente, o Brasil recebeu autorização para exportar sorgo aos chineses, abrindo uma nova frente de negócios.
Se por um lado a guerra comercial favorece o agronegócio, por outro, o governo Lula enfrenta um dilema: o aumento das exportações pode pressionar os preços dos alimentos no mercado interno, impactando a inflação.
Economistas já alertam para esse risco. A alta do dólar, impulsionada pelo cenário global, tem encarecido insumos e pressionado a inflação. Carlos Thadeu Freitas Filho, especialista da BGC Liquidez, destaca que "o risco inflacionário se concretizou", com previsões de tarifas elevadas desde a eleição de Trump.
Os desafios climáticos também entram na equação. O Centro-Oeste enfrenta temperaturas elevadas e previsão de déficit hídrico, o que pode afetar a produtividade agrícola.
Com Lula desgastado nas pesquisas e o custo de vida em alta, o governo precisará equilibrar os ganhos econômicos com o impacto social da inflação. A oportunidade está posta, mas o preço político pode ser alto.