Política Maranhão
Camarão fica fora de pré-lista do PT revelada pelo site Metrópoles.
Lista interna do PT divulgada pelo Metrópoles expõe bastidores da disputa política para 2026 e chama atenção pela ausência do nome do vice-governador Felipe Camarão no Maranhão. O episódio levanta dúvidas sobre as prioridades nacionais do partido no estado.
04/03/2026 10h51 Atualizada há 3 dias
Por: Liane Castro

O vazamento é a alma do negócio político. E a lista interna do PT, que veio a público nesta terça-feira pelo portal Metrópoles, é daquelas peças que valem mais por suas entrelinhas e, principalmente, por suas ausências, do que por seu conteúdo explícito. O mapeamento das ambições petistas para governos estaduais e Senado em 2026 escancara um fato que, nos corredores do poder em São Luís, tentam maquiar com discursos de unidade: o nome do vice-governador Felipe Camarão não é, neste momento, uma prioridade nacional do partido.

Para os camaronistas mais eufóricos, que diariamente vendem a imagem do vice como o "único governador do PT no Nordeste" ou a "prioridade máxima da legenda", a lista é um balde de água fria. Enquanto o partido desfila um verdadeiro rosário de candidaturas próprias e apoios palacianos em 16 estados — incluindo os colegas de ofício de Camarão, como Jerônimo Rodrigues (BA), Elmano de Freitas (CE) e Rafael Fonteles (PI) —, o Maranhão é um vazio no mapa. Nem o governo estadual, nem as duas vagas ao Senado foram contempladas com um nome sequer.

A pergunta que não quer calar é: por quê?

A resposta nos leva para além da mera burocracia partidária e adentra o terreno movediço das alianças e da sobrevivência política. O PT maranhense, e por extensão a direção nacional, parece refém de um dilema hamletiano: apoiar Camarão, seu vice, ou chancelar um acordo com o presidente da Assembleia, o "poderoso" I racema Vale do PSB, que comanda os rumos do estado com mãos de ferro.

Ao ignorar Camarão na pré-lista, o PT não está necessariamente dizendo "não" a ele. O partido está, na verdade, fazendo uma declaração muito mais sofisticada e dura. Está dizendo que, neste tabuleiro, o nome do jogador importa menos do que a força do adversário. O PT sabe que uma candidatura própria no Maranhão, sem o aval do Palácio dos Leões, pode não ser uma batalha, mas um fuzilamento político. E a sigla, que sempre prezou pela sobrevivência institucional, parece inclinada a não cometer esse suicídio.

É nesse ponto que a política nacional encontra a literatura. O escritor tcheco Milan Kundera, em seu romance A Insustentável Leveza do Ser, nos lembra que “o que acontece apenas uma vez é como se não tivesse acontecido nunca. Se o homem só pode viver uma vida, é como se não vivesse”. Na política, a oportunidade única também carrega esse peso. Para Camarão, 2026 pode ser essa chance. Mas para o PT, o jogo no Maranhão não se resume a uma vida só. O partido já viveu várias: apoiou Jackson, rompeu com Jackson, aliou-se a I racema... A história ensina ao PT que, no Maranhão, a "leveza" de uma candidatura idealista pode ser "insustentável" diante do peso da máquina estadual.

O silêncio sobre o Senado é outra camada desse mesmo enredo. Ao não cravar um nome para a Câmara Alta, o partido mantém uma moeda de troca valiosa. O nome de Camarão para o Senado poderia ser a "saída honrosa" que viabilizaria o apoio à reeleição de um nome do grupo de I racema para o governo. É a velha arte de transformar uma derrota (não ser o cabeça de chapa) em um prêmio de consolação (uma vaga no Senado).

Portanto, a lista vazada pelo Metrópoles funciona como um alerta. Ela mostra que, na visão da cúpula petista, Felipe Camarão ainda precisa provar que seu nome tem peso eleitoral para superar a máquina governista e, mais do que isso, que sua candidatura não implodirá a ponte que o PT mantém com o Palácio dos Leões. Por enquanto, no papel, Camarão é um fantasma. Resta saber se ele conseguirá, nos próximos meses, ganhar corpo e convencer o partido de que sua vida política não pode ser uma vida que, por não ser vivida plenamente agora, corra o risco de parecer que nunca aconteceu.