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Atuação de alguns médicos e psiquiatras públicos com marcas de remédios (interesses e comissão) gera alerta no Maranhão e no Brasil.
Relação entre médicos e indústria farmacêutica no Maranhão e no Brasil levanta debates éticos sobre influência na prescrição, judicialização da saúde e impactos no SUS.
21/02/2026 13h08
Por: Sabrina Pereira

A relação entre a classe médica e a indústria farmacêutica é histórica e, em tese, benéfica para o desenvolvimento de novos tratamentos. No entanto, quando essa parceria envolve profissionais que atuam na rede pública de saúde, como psiquiatras e médicos no Maranhão e em diversos outros estados brasileiros, as suspeitas e os debates éticos se intensificam. O cerne da questão está no conflito de interesses e na influência que o marketing agressivo pode exercer sobre a prescrição de medicamentos no Sistema Único de Saúde (SUS), impactando desde a atenção primária até a judicialização da saúde.

A presença da indústria farmacêutica dentro do sistema público é mais capilarizada do que se imagina. Estudos e discussões sobre o tema apontam que a pressão comercial não se limita aos grandes centros de pesquisa, mas chega ao cotidiano das Unidades Básicas de Saúde (UBS) e dos hospitais públicos do SUS, locais que deveriam ser o reduto da Atenção Primária e da medicina baseada em evidências.  Uma pesquisa da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), realizada há mais de uma década, já havia exposto a realidade do "lobby da indústria" nos consultórios públicos . O estudo, que entrevistou mais de 700 médicos e gestores, revelou que 75% dos gestores de saúde recebiam visitas mensais de representantes de laboratórios.

Um dos principais vetores dessa influência é a atuação dos propagandistas de laboratórios. Ao circular por unidades de saúde e levar amostras grátis, esses profissionais criam um vínculo de reciprocidade que pode, de forma consciente ou não, direcionar a conduta médica.

Esse mecanismo é apontado como um fator que contribui para o aumento do consumo de determinados psicofármacos, muitas vezes priorizando medicamentos de marca, os chamados medicamentos de referência, em detrimento de alternativas genéricas igualmente eficazes, porém mais econômicas para os cofres públicos, ou até mesmo de abordagens não farmacológicas.

O retrato dessa influência é ainda mais preocupante quando se analisa a percepção dos próprios médicos. À época, 37,7% dos profissionais admitiram que poderiam ser influenciados pela propaganda, e 67% afirmavam considerar as informações dos materiais promocionais no momento da prescrição . Essa dinâmica, que envolve a distribuição de amostras grátis, brindes e artigos científicos tendenciosos, cria um vínculo de reciprocidade que pode direcionar a conduta médica para longe das melhores evidências e das opções mais custo-efetivas para o sistema público, priorizando medicamentos de marca em detrimento de genéricos igualmente eficazes ou de abordagens não farmacológicas.

O Paradoxo do SUS: Entre a Influência de Mercado e o Desabastecimento

Enquanto o marketing farmacêutico tenta ganhar espaço nas decisões clínicas, a realidade do SUS é marcada por um paradoxo: ao mesmo tempo em que o consumo de psicofármacos cresce — as compras de remédios psiquiátricos no Brasil aumentaram 4,5% em três anos (até início de 2026) — o sistema sofre com a irregularidade crônica no fornecimento de medicamentos essenciais.

A interrupção na produção e na distribuição de fármacos para transtornos graves, como esquizofrenia e transtorno bipolar, quebra a continuidade do tratamento e gera sofrimento para pacientes e familiares. É nesse vácuo deixado pelo Estado que a influência da indústria para a incorporação de novos (e muitas vezes mais caros) medicamentos encontra um terreno fértil. Esse cenário alimenta um ciclo perigoso: a falta do básico abre espaço para a pressão por tecnologias de alto custo, que muitas vezes chegam ao sistema não por um planejamento racional, mas por meio da judicialização.

A Judicialização como Rota de Pressão e o Impacto nos Cofres Públicos

A influência da indústria farmacêutica é apontada como um motor oculto da judicialização da saúde, fenômeno em que pacientes recorrem à Justiça para garantir o acesso a medicamentos ou tratamentos não fornecidos pelo SUS. A crescente busca por tratamentos inovadores e de alto custo, frequentemente promovidos em parceria com formadores de opinião, tem gerado um impacto bilionário no orçamento público .

Dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e da Advocacia-Geral da União (AGU) revelam que as demandas por medicamentos não padronizados pressionam o orçamento da saúde e obrigam o Estado a realizar compras emergenciais . O cerne do conflito está no embate entre o direito individual à saúde e a sustentabilidade do sistema público. O Supremo Tribunal Federal (STF) e o Superior Tribunal de Justiça (STJ) já firmaram teses importantes, como a necessidade de comprovação da imprescindibilidade do fármaco, da inviabilidade de substituição por outro padronizado e da existência de registro na Anvisa . No entanto, o "efeito multiplicador" das ações judiciais, somado à pressão constante por novas incorporações, mantém o tema como um dos maiores desafios para os gestores do SUS .

Um Novo Marco de Transparência: A Resolução CFM nº 2.386/2024

Em resposta a essa crescente preocupação ética e com o objetivo de blindar a autonomia médica, o Conselho Federal de Medicina (CFM) aprovou a Resolução nº 2.386/2024, que entrou em vigor em março de 2025 . A nova norma representa um marco ao estabelecer regras claras de transparência para os vínculos entre médicos e as indústrias farmacêuticas, de insumos e de equipamentos médicos .

O que muda na prática?

O conselheiro do CFM, Raphael Câmara Parente, resumiu o espírito da norma ao afirmar que "o poder do marketing influencia a relação entre profissionais de saúde e indústrias, o que pode interferir em políticas de saúde, pressionando a aquisição de medicamentos e outros materiais com custo de bilhões de reais que interferem no funcionamento dos Sistemas de Saúde Público e Privado" .

Exceções e Desafios: A resolução, no entanto, abre algumas exceções que geram debate. Ficam isentos da obrigação de declaração os rendimentos de investimentos puramente financeiros em ações do setor e, de forma polêmica para muitos especialistas, as amostras grátis de medicamentos continuam permitidas, desde que distribuídas conforme as normativas vigentes e dentro de práticas éticas .

Desafios Persistentes e o Futuro da Relação

A Resolução 2.386/2024 é um passo crucial para higienizar a relação entre o público e o privado na saúde brasileira. Ela chega em um momento em que a sociedade e as próprias entidades médicas reconhecem a necessidade de separar o que é ciência do que é marketing .

No entanto, desafios estruturais persistem. A fiscalização do cumprimento da norma e a aplicação de sanções pelos CRMs serão tarefas complexas. Além disso, a simples existência de uma declaração de conflito de interesses não resolve, por si só, os problemas crônicos do SUS, como a falta de medicamentos essenciais e a defasagem das listas oficiais . Enquanto o sistema público falhar em fornecer o básico de forma consistente, a porta estará aberta para que a influência da indústria, mesmo que declarada, preencha essa lacuna com soluções de mercado que nem sempre são as mais adequadas ou sustentáveis para o paciente e para a saúde pública.