história Caxias
Você sabia que Caxias do Maranhão travou e venceu uma batalha nacional pelo nome contra cidades do RS e RJ?
Em 1943, Caxias do Maranhão venceu uma disputa nacional pelo direito ao nome Caxias contra cidades do RS e RJ, preservando sua identidade histórica. A batalha envolveu autoridades e marcou a memória da Princesa do Sertão.
20/02/2026 10h35
Por: Jornalista Aylton Viana

Em 1943, o Brasil viveu um conflito longe dos campos de batalha, mas que acendeu paixões regionais e mobilizou autoridades de três estados. O objeto da discórdia era um nome: Caxias. Na época, três prósperas cidades – uma no Maranhão, uma no Rio de Janeiro e uma no Rio Grande do Sul – partilhavam a mesma designação, causando uma "coincidência" indesejada para os órgãos oficiais de geografia e estatística do país.

O Conselho Nacional de Geografia, num esforço para padronizar a toponímia nacional, oficiou às comissões regionais propondo o fim da duplicidade. A ideia era que cada uma das três "Caxias" adoptasse um nome distinto. A proposta inicial reservava à cidade gaúcha, já então de grande importância económica, a manutenção do nome "Caxias". À comarca fluminense, berço do Patrono do Exército, caberia o título de "Duque de Caxias". Para a cidade maranhense, conhecida como a "Princesa do Sertão", sugeriram-se as opções "Marechal Caxias" ou "Caxias do Norte".

Foi a reacção do Maranhão, porém, que deu o tom da disputa. A Comissão Regional de Geografia no estado, presidida pelo Dr. José Eduardo de Abranches Moura, não aceitou passivamente a alteração. Num relatório contundente, Dr. Moura defendeu a antiguidade e a tradição da sua cidade, que já ostentava o nome desde 1836, muito antes, portanto, das homenagens ao Duque. A sua posição era clara: Caxias, no Maranhão, tinha o direito de conservar o nome que lhe era caro pelos seus séculos de história e desenvolvimento.

"Tínhamos por dever sustentar a conservação do nome de Caxias à nossa Princesa do Sertão, nome que nos era caro pela sua antiguidade, desenvolvimento e tradição", advertiu o Dr. Moura no seu relatório, demonstrando que a defesa ia além do orgulho local.

A ele juntou-se o Dr. Otávio Passos, então prefeito de Caxias (MA), numa luta decidida. O professor Nereu Bittencourt também contribuiu com um trabalho histórico robusto, lembrando que o nome da cidade não era uma homenagem directa ao militar, mas que a própria glória do soldado, Luís Alves de Lima e Silva, estava indissociavelmente ligada à cidade maranhense, palco da última batalha da Balaiada, que ele próprio sufocou. O argumento era de peso: a honra de ter o nome ligado à "maior glória do Exército Nacional" não poderia ser subjugada por uma "simples superioridade financeira" alegada por outra cidade.

A refrega foi intensa, com respostas telegráficas a cruzarem-se entre o Maranhão e o Rio de Janeiro. O desfecho, porém, é conhecido e, para Caxias do Maranhão, agridoce. A cidade fluminense tornou-se Duque de Caxias, adoptando o título completo do seu herói. A cidade gaúcha consolidou-se como Caxias do Sul. E a cidade maranhense? Permaneceu Caxias, fruto da sua vigorosa batalha legal e histórica.

Passada a "guerra" dos topónimos, a história seguiu o seu curso de forma desigual. Enquanto Caxias do Sul floresceu, tornando-se um polo industrial e ganhando até um aeroporto internacional, e Duque de Caxias se transformou numa potência económica na Baixada Fluminense, com quase um milhão de habitantes, a Caxias maranhense ficou à margem desse ciclo de desenvolvimento acelerado.

A cidade que, em 1943, mobilizou forças para preservar a sua identidade, acabou por conhecer a estagnação económica. A sua vitória na disputa nacional pelo nome preservou a memória e a tradição, mas não impediu que o comboio do progresso, que tão ruidosamente passou pelas suas homónimas, a deixasse para trás na estação. Hoje, o nome Caxias, no Maranhão, permanece como um elo vivo com o passado imperial e um testemunho mudo de uma época em que uma batalha por um nome era, acima de tudo, uma luta pela alma de uma cidade.