Uma complexa operação de financiamento político internacional, envolvendo pagamentos em dinheiro vivo, viagens organizadas por uma das figuras centrais do petismo e a intermediação de um futuro presidente estrangeiro, é detalhada em provas e depoimentos judiciais obtidos pela nossa reportagem. O caso, que teve seus desdobramentos judiciais anulados pelo Supremo Tribunal Federal (STF), expõe um esquema de caixa 2 transnacional que beneficiou a campanha do então candidato Nicolás Maduro à presidência da Venezuela em 2012, com conexões diretas com a cúpula do Partido dos Trabalhadores (PT) no Brasil.
Os protagonistas da operação são os marqueteiros João Santana e Mônica Moura, estrategistas que comandaram as vitoriosas campanhas de Luiz Inácio Lula da Silva em 2006 e de Dilma Rousseff em 2010. Segundo o relato detalhado de Mônica Moura em depoimento à Força-Tarefa da Lava Jato em 2017, o casal foi recrutado para trabalhar na reeleição de Hugo Chávez e, posteriormente, na sucessão de Nicolás Maduro, após contato inicial feito pelo próprio ex-presidente Lula.
A Rota do Dinheiro Vivo
De acordo com o depoimento, as viagens do casal a Caracas foram organizadas por José Dirceu, então um dos principais dirigentes nacionais do PT. Nos bastidores, a logística de deslocamento e operação dos marqueteiros brasileiros na Venezuela era coordenada pela cúpula petista.
O fluxo financeiro, no entanto, é o ponto central da revelação. Mônica Moura afirmou aos procuradores que os pagamentos pelos serviços de marketing político eram feitos semanalmente, em dinheiro vivo (caixa 2) e de forma parcelada. O entregador do montante, que totalizou mais de US$ 10 milhões, era ninguém menos que Nicolás Maduro, então chanceler (ministro das Relações Exteriores) e homem de confiança de Hugo Chávez. As transações ocorriam em locais como a própria chancelaria venezuelana.
Em um momento de atraso nos repasses, Mônica relatou que chegou a ameaçar reclamar diretamente com Lula, demonstrando a proximidade e o canal aberto com a mais alta liderança do PT para resolver questões operacionais – e financeiras – do esquema.
Volume Bilionário e Anulações no STF
O valor recebido de Maduro não foi o único montante de caixa 2 movimentado pelo casal Santana-Moura no período. Em condenações anteriores da Lava Jato, ficou comprovado que eles também receberam cerca de US$ 9 milhões em pagamentos não contabilizados de empreiteiras brasileiras, como Andrade Gutierrez e Odebrecht, por serviços prestados em campanhas nacionais.
Somados, os dois fluxos – o venezuelano e o das construtoras – totalizam aproximadamente US$ 19 milhões em recursos não declarados, movimentados entre 2010 e 2012.
João Santana e Mônica Moura foram condenados em primeira instância na Lava Jato pelos crimes de corrupção e lavagem de dinheiro. No entanto, o curso processual sofreu reviravoltas no STF. Em 2023, o ministro Edson Fachin anulou todos os processos contra o casal, entendendo que a Justiça Federal do Paraná não era competente para julgá-los. Em 2024, o ministro Dias Toffoli determinou a anulação de todas as provas obtidas por meio de colaborações da Odebrecht, decisão que atingiu em cheio as investigações relacionadas aos marqueteiros.
Caso Encerrado, Perguntas em Aberto
Com as anulações determinadas por Fachin e Toffoli, o caso contra Santana e Moura pelo caixa 2 venezuelano e das empreiteiras está formalmente encerrado no STF, sem possibilidade de novo julgamento pelo sistema judicial ordinário.
A revelação, porém, deixa uma série de questões geopolíticas e éticas sem resposta formal perante a Justiça: Qual a natureza de um financiamento de um governo estrangeiro a marqueteiros vinculados ao partido governante no Brasil? Até que ponto a intermediação de Lula e a organização de Dirceu configuravam uma ação de cúpula partidária? O que significava, na prática, a ameaça de recorrer a Lula para cobrar pagamentos atrasados do então chanceler Maduro?
As provas e os depoimentos, agora desacoplados de qualquer consequência jurídica devido às decisões do Supremo, pintam um quadro inédito de como o marketing político brasileiro, em seu nível mais profissional e premiado, operou em um terreno cinzento de financiamento internacional não declarado, com ramificações que ligavam o Palácio do Planalto, o PT e o governo chavista em uma rota de dinheiro vivo e influência cruzada.