A Polícia Federal (PF) deflagrou uma operação que resultou na prisão de três pessoas suspeitas de participação em um esquema de desvio e lavagem de dinheiro envolvendo emendas parlamentares destinadas à área da cultura no Maranhão. De acordo com o relatório da PF, o grupo teria movimentado mais de R$ 2 milhões em recursos públicos por meio de instituições culturais, muitas vezes para eventos que sequer chegaram a ser realizados.
Entre os detidos estão Ivan Jorge da Piedade Madeira, de 53 anos, presidente da Companhia de Cultura Popular Catarina Mina; Maria José de Lima Soares, de 57 anos, presidente do Boi de Maracanã e representante da Banzeiro Grande Produções LTDA; e Larissa Rezende Santos, de 38 anos, assessora parlamentar da deputada estadual Andreia Rezende (PSB).
Segundo a PF, o trio foi preso em flagrante após sacar R$ 500 mil — valor que deveria ser utilizado na realização de um evento em comemoração ao Dia das Crianças, o qual não ocorreu. Durante a operação, os agentes apreenderam quatro celulares, retalhos de documentos, uma agenda, uma pasta com registros financeiros, um pendrive e R$ 419.350,00 em espécie.
Do total apreendido, R$ 400 mil estavam dentro de uma mochila transportada por Larissa Rezende, R$ 19.350,00 foram encontrados na bolsa de Maria José, e R$ 50 mil estavam na conta de Ivan Madeira.
As investigações indicam que os valores das emendas eram repassados a institutos e organizações culturais. Após o saque, o dinheiro era repartido entre os envolvidos, sendo a maior parte devolvida a gabinetes parlamentares. Conforme a PF, 5% dos valores eram destinados a impostos, 10% como comissão ao representante da instituição e 5% à produtora responsável pela emissão das notas fiscais.
Depoimentos colhidos pela PF reforçam que os recursos eram direcionados por meio de indicações parlamentares. Maria José de Lima Soares relatou que conheceu Larissa Rezende no gabinete do ex-deputado Stênio Rezende, marido da deputada Andreia Rezende. Ela afirmou ter repassado cerca de R$ 1,2 milhão à assessora e disse que os valores vinham de emendas indicadas por parlamentares.
Ainda conforme a investigação, documentos apreendidos mencionam emendas destinadas por Andreia Rezende (PSB), Helena Duailibe (PP), Cláudia Coutinho (PDT) e outros parlamentares.
A assessora Larissa Rezende declarou à PF que o dinheiro encontrado com ela seria entregue ao gabinete da deputada Helena Duailibe, supostamente para a realização de um evento natalino.
A Polícia Federal afirma que o esquema tinha como objetivo disfarçar e dificultar a identificação da origem dos recursos, tornando-os menos perceptíveis aos órgãos de fiscalização e controle.
Helena Duailibe (PP) declarou ter sido surpreendida com a operação, negou conhecer os envolvidos e afirmou que jamais recebeu valores indevidos. Disse ainda que aguarda acesso ao inquérito para se manifestar oficialmente e se colocou à disposição das autoridades.
Cláudia Coutinho (PDT) esclareceu, por meio de nota, que não é investigada pela PF e que seu nome foi apenas mencionado em um documento intitulado “SECMA – Emendas Indicadas”, que lista deputados que destinaram recursos à Secretaria de Cultura do Maranhão. A parlamentar ressaltou que indicar emendas é uma atribuição legítima do cargo e que não há qualquer denúncia ou acusação formal contra ela.
A defesa de Ivan Madeira informou que ainda está tomando conhecimento dos autos, destacando que ele é um dos mais antigos fazedores de cultura do Maranhão, com quase três décadas de atuação à frente da Companhia Catarina Mina.
Os advogados de Larissa Rezende afirmaram que ela é ré primária, possui emprego lícito e sempre agiu de forma ética. Ressaltaram que qualquer julgamento antecipado é precipitado e que ela colaborará com as investigações para esclarecer os fatos.
Já a defesa de Maria José de Lima Soares, conhecida como “Maria de Maracanã”, afirmou que ela tem histórico de atuação cultural e social nas comunidades de São Luís, e que sempre prestou contas de todos os projetos executados. A nota diz ainda que ela está colaborando com a Justiça e confia na elucidação do caso.
A Polícia Federal segue analisando os documentos e valores apreendidos para determinar o destino final dos recursos e identificar outros possíveis envolvidos no esquema.