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Deputado propõe que laços socioafetivos não gerem pensão alimentícia.
Proposta que visa excluir a obrigação alimentar de relações puramente socioafetivas é elogiada por quem defende a autonomia individual e criticada por especialistas que veem risco de vulnerabilizar economicamente membros de famílias reconstituídas.
23/09/2025 01h35
Por: Kaio Silvano

Um projeto de lei em tramitação na Câmara dos Deputados coloca em lados opostos dois princípios caros ao direito de família: a autonomia da vontade e a proteção integral dos vulneráveis. De autoria do deputado Kim Kataguiri (União-SP), a proposta estabelece que os vínculos exclusivamente socioafetivos não configuram parentesco para fins de obrigação alimentar, impedindo que uma pessoa seja judicialmente compelida a pagar pensão a alguém com quem mantém uma relação de afeto, mas não de sangue ou adoção.

A iniciativa reacende um debate complexo e sensível, que há anos divide juristas e a sociedade, especialmente no contexto das famílias reconstituídas – aquelas formadas por novos casamentos ou uniões onde há filhos de relacionamentos anteriores.

O que propõe o projeto de lei?

O texto do PL é conciso e altera a Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro (LINDB). Se aprovado, acrescentará um parágrafo com a seguinte redação:

“Para fins de obrigação alimentar, não se considera parentesco o vínculo exclusivamente socioafetivo, salvo se decorrente de adoção ou manifestação expressa de vontade nesse sentido.”

Em essência, a proposta busca:

  1. Diferenciar laços legais de laços emocionais: Evitar que relações de afeto sejam automaticamente convertidas em obrigações financeiras por decisão judicial.

  2. Valorizar a vontade expressa: A proposta mantém a possibilidade de existir a obrigação alimentar se a pessoa reconhecer o vínculo de forma expressa, por meio de escritura pública ou documento equivalente.

  3. **Combater what Kataguiri chama de “jurisprudência inflacionária”: O deputado argumenta que alguns tribunais têm estendido demais o conceito de socioafetividade, criando obrigações não previstas em lei e supostamente ferindo a segurança jurídica.

Os defensores da proposta, alinhados ao argumento do autor, enxergam a medida como uma necessária correção de rumos. Eles sustentam que:

Por outro lado, juristas especializados em direito de família e entidades de proteção à infância veem a proposta com grande preocupação. As principais críticas são:

A polarização do tema refletiu-se imediatamente nas redes sociais. Enquanto apoiadores da iniciativa comemoraram, classificando a atual jurisprudência como uma "aberração" e um "incentivo a processar ex-companheiros", os críticos acusaram o projeto de ser "cruel" e "desconhecer a dinâmica das famílias modernas". Frases como "a lei de socioafetividade não deveria nem existir" viralizaram, demonstrando o desconforto de parte da população com a interferência do Estado em relações afetivas.

O projeto do deputado Kim Kataguiri vai ao cerne de uma discussão fundamental no século XXI: até que ponto o direito deve regular as relações afetivas? A proposta busca trazer clareza e proteger o indivíduo de obrigações não desejadas. No entanto, especialistas alertam que essa busca por certeza jurídica pode ter um custo social alto, deixando desamparados justamente aqueles que a lei deveria proteger – os mais frágeis em uma estrutura familiar.

O caminho do legislativo será acompanhado de perto por associações de direito de família, juristas e pela sociedade civil. Se aprovada, a lei certamente será alvo de questionamentos no Supremo Tribunal Federal (STF), onde a discussão sobre a primazia da afetividade versus a autonomia individual será finalmente decidida.