A palavra patrimônio tem um peso muito grande pois é nela que se representa toda a história de um povo. Tem um peso político também, pois uma vez que ela é empregada, carrega consigo uma carga emocional de valorização e reconhecimento. Grandes cidades utilizam seu patrimônio cultural como um marketing atraindo investimentos, eventos, pessoas e aquecendo setores econômicos e infraestrutura. Logo, é de interesse de todo gestor político fazer o mesmo com a sua cidade.
Acontece que esse fenômeno do “patrimônio como mercado” é uma ponta, o fim de uma longa cadeia que se inicia em outra extremidade, que vai ser a razão de sua proteção, preservação e conservação – aqui se tratando de patrimônio edificado. Em Caxias se faz o contrário. E isso representa um risco ao próprio patrimônio existente, pois só se valoriza o “monumento” que o estado (Prefeitura) quer que seja reconhecido como tal, excluindo e silenciando outros. Esse é o efeito maléfico de tratar o patrimônio apenas como um marketing voltado ao turismo.
A Prefeitura tenta emplacar Caxias como uma “cidade histórica” com seu “centro ou núcleo histórico”, repleto de “casarios exemplares” de forma isolada, inclusive esse é um conceito já superado. Esses locais, segundo a visão do nosso poder público, seriam espaços para contemplação estética que cada imóvel representa – mesmo quase todos não tendo sua originalidade - pois o fundamental é servir de pano de fundo para imagens a serem compartilhadas nas redes sociais com o intuito de reforçar a ideia de “cidade turística e de encantos”.
Isso demonstra total desalinho com a realidade em que a cidade se encontra: imóveis abandonados, em arruinamento, demolidos e totalmente descaracterizados. No debate realizado pela Prefeitura não se inclui nenhuma solução de curto, médio e a longo prazo para reverter o preocupante quadro do patrimônio edificado caxiense.
Abaixo, listo cinco pontos que deveriam ser pautas urgentes em busca de soluções do patrimônio cultural caxienses:
1 - Imóveis históricos da Prefeitura abandonados e em situação de arruinamento
Não são quaisquer imóveis, são talvez os mais significativos de nosso povo: Centro de Cultura, Sede da Prefeitura, Teatro Fênix e Casa do Governador Eugenio Barros, apenas para citar alguns que são propriedades da Prefeitura Municipal. Enquanto o orçamento da cultura é privilegiado para eventos festivos, nenhum centavo é destinado aos bens que são referências de nosso acervo arquitetônico.
2 - O apagar e a releitura de locais de memória feitos pela Prefeitura
Aqui cito três casos em que a gestão ignora a histórica local e tenta emplacar uma nova releitura em busca do “patrimônio marketing”: Morro do Alecrim – rua das sombrinhas, Morro de Santo Antônio (estátua) e Casino Caxiense.
3 - Imóveis históricos descaracterizados e paisagem ameaçada
O passeio realizado pela Prefeitura pelo centro me faz pensar o quê de fato se pretendeu mostrar. As igrejas centenárias de Caxias, embora com belas volumetrias, estão completamente descaracterizadas com elementos construtivos que não condizem com seu estilo e período histórico. Os casarios que ainda restam, perderam suas janelas, beirais e platibandas. A pintura dos imóveis chega a ser bizarra. Os engenhos publicitários (placas publicitárias) destroem e escondem os elementos arquitetônicos que fazem com que os imóveis se destaquem na paisagem da cidade.
Um outro ponto que se quer é levantado em Caxias é a verticalização do centro, que entre outros problemas estruturais urbanos que ela traz consigo, é a agressão ao entorno das edificações.
4 - Imóveis e bens icônicos distantes do centro sem registro
Não é só no centro que se encontram imóveis e locais de interesse históricos. No bairro do Ponte e Tresidela, existem diversos exemplares de casarios icônicos e pitorescos. Vale ressaltar também outros pontos de interesse histórico e cultural que são parte do patrimônio de muitas comunidades. Um exemplo era a Torre da Caixa D´água da Refinaria, uma referência para o bairro de mesmo nome, e que foi demolida sem justificativa causando um vazio em seus moradores.
5 - Ausência de legislação municipal
Talvez o mais grave, pois ainda que não haja real interesse da Prefeitura em assumir as suas responsabilidades de salvaguarda do patrimônio cultural, a legislação serviria de apoio a sociedade civil e ao Ministério Público, na proteção do mesmo. Não existe nenhuma legislação local que ajude na preservação de fato de nosso patrimônio. O inventário municipal que registaria todos os bens de interesse históricos e seus elementos, nunca foi realizado pela Prefeitura. O Plano Diretor de Caxias, datado de 2006, que também poderia servir de apoio, já deveria estar na segunda atualização. mas nunca foi atualizado.
Essa é a realidade em relação ao patrimônio cultural de Caxias, mas Prefeitura parece viver em um mundo paralelo de fantasias.